
A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas evidenciou uma nova disputa de narrativas entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Especialistas ouvidos pela CNN apontam que o assunto pode estar no centro das estratégias de ambos para atrair o eleitorado ainda indeciso à disputa presidencial.
"O impacto eleitoral da decisão dos Estados Unidos eu acho que é realocar o entorno central de um debate para a segurança pública", afirma Priscila Caneparo, pós-doutora em Direito Internacional e docente da Washington & Lincoln University. "A oposição vai argumentar que o debate foi internacionalizado e que o combate às facções será um objeto central da política deles."
O governo Lula é contrário à decisão americana e pretende reforçar o discurso de defesa da soberania nacional. Nos bastidores, aliados avaliam que a campanha deve explorar a narrativa de que Flávio Bolsonaro busca entregar o Brasil aos interesses dos Estados Unidos.
á o entorno do senador aposta na segurança pública como eixo central da campanha. A avaliação é de que Flávio pode explorar sua aproximação com o governo de Donald Trump e sustentar que conseguiu avançar mais no combate às facções criminosas em poucos dias do que o governo petista fez em anos.
"Talvez o Flávio Bolsonaro saia ganhando", afirma. "A mensagem que ele quer passar é: fui buscar ajuda do governo dos Estados Unidos porque o governo brasileiro não está fazendo."
O tema ganhou centralidade na corrida presidencial porque a segurança pública é hoje a principal preocupação de 27% dos brasileiros, segundo pesquisa Nexus/BTG divulgada no mês passado.
Ao mesmo tempo, as duas narrativas encontram respaldo em sentimentos já presentes no eleitorado. Em novembro, levantamento da Genial/Quaest apontou que 73% dos brasileiros defendiam que organizações criminosas fossem classificadas como grupos terroristas. Já uma pesquisa realizada no início deste ano, após a invasão dos Estados Unidos na Venezuela, mostrou que 58% temiam uma eventual operação militar americana em território brasileiro.
"Há apoio da população para essa classificação do PCC e do Comando Vermelho como terroristas, mas também existe resistência a qualquer sinal de intervenção estrangeira. A política vai indicar qual dessas narrativas será mais eficaz daqui para frente", observa Eduardo Grin, cientista político e professor da FGV EAESP
Para o professor Lucas Pereira Rezende, do Departamento de Ciência Política da UFMG, a decisão dos EUA reforça uma polarização que já vinha sendo construída desde o chamado "tarifaço" anunciado anteriormente por Trump contra o Brasil.
"Serão dois argumentos colocados em choque. Ou você defende o Brasil contra os interesses dos EUA, argumento do Lula; ou você defende a visão dos Estados Unidos de que bandido bom é bandido morto", avalia. "Acho que isso vai reforçar aquelas visões já cristalizadas e consolidadas, vai jogar gasolina no fogo. Dificilmente vai mudar alguma intenção de voto."
Segundo pesquisa Meio/Ideia, os eleitores indecisos somam 5% em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio. Para especialistas, esse grupo se vê diante de duas propostas simbólicas distintas: um discurso centrado em segurança pública e outro ancorado na defesa da soberania nacional.
emas negativos, como o escândalo do Banco Master ou a relação de Flavio e seu entorno com Daniel Vorcaro.
Nesse sentido, o principal desafio do presidente Lula será impedir que a discussão seja reduzida a uma narrativa de que o bolsonarismo combate o crime enquanto o governo federal se limita a criticar a interferência internacional, ao mesmo tempo em que tenta evitar novos desdobramentos do escândalo envolvendo o INSS que podem criar dificuldades para o mandatário.
Leonardo Paz Neves, pesquisador do Núcleo de Inteligência Internacional da FGV, aponta que os brasileiros têm uma "tradição" de aprovar "medidas duras" contra o crime organizado. "Isso extrapola a bolha da direita e pega os indecisos, a esquerda, a comunidade."
E, mesmo que esse tema dificilmente defina a disputa presidencial e ainda seja prematuro prever para qual lado os indecisos devem migrar a essa altura, Neves observa que o tema tem relevância nacional e potencial eleitoral.
"Há um movimento de perda e ganho acontecendo ao mesmo tempo" avalia. "Acho que essa disputa vai render algum dividendo eleitoral. Então, você vai encontrar um ou outro caso de migração de voto, sim."
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