
A crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) começa a provocar preocupação também no agronegócio brasileiro. O principal impacto, segundo especialistas ouvidos pela CNN Brasil, está relacionado à segurança jurídica de contratos, garantias e processos de recuperação judicial.
O alerta ocorre justamente em um momento delicado para produtores e empresas do setor, que já convivem com crédito mais restrito, custos elevados e crescimento expressivo das recuperações judiciais.
A avaliação de Claudio Damasceno, especialista em reestruturação e recuperação judicial e sócio da RGF-BIZDOC, é de que ainda não existem evidências de que a crise no STF, isoladamente, esteja afastando investidores ou provocando o encarecimento do crédito rural.
O problema é que a instabilidade institucional chega quando as condições de financiamento do agro já apresentam forte deterioração.
Dados apresentados pela RGF-BIZDOC mostram que as emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) despencaram de uma média mensal de R$ 5,3 bilhões, no segundo semestre de 2025, para apenas R$ 1,2 bilhão no primeiro semestre de 2026.
A redução foi de 77%. Além disso, gestoras passaram a exigir garantias equivalentes a 60% a 80% do valor dos ativos.
Outro número chama atenção.
Segundo dados da Receita Federal utilizados pelo Monitor RGF-BIZDOC, a quantidade de empresas do agronegócio com registro de recuperação judicial saltou de 313, em março de 2023, para 1.336 em agosto de 2026.
Isso representa um crescimento superior a quatro vezes em pouco mais de três anos.
E o cenário pode ser ainda mais grave, já que os números consideram CNPJs e não abrangem grande parte dos produtores rurais pessoa física que também recorrem à recuperação judicial.
É nesse ambiente que a crise institucional do STF passa a ser mais um elemento de preocupação.
Em processos de recuperação judicial, decisões relacionadas à validade de garantias, execução de dívidas e questões tributárias podem ter impacto direto sobre a disposição dos credores para renegociar.
Quanto menor a previsibilidade jurídica, maior pode ser a cautela de quem empresta dinheiro.
Por isso, o especialista ouvido pela CNN ressalta que seria incorreto atribuir ao Supremo a origem da atual restrição ao financiamento rural. A crise institucional funciona, segundo sua avaliação, como um agravante em um cenário que já era difícil.
Para um setor que movimenta investimentos bilionários, depende fortemente de crédito para financiar cada nova safra e trabalha com contratos de longo prazo, segurança jurídica e previsibilidade são fatores fundamentais.
A combinação de juros elevados, redução da oferta de financiamento, maior exigência de garantias e avanço das recuperações judiciais já coloca pressão sobre produtores e empresas.
Agora, a turbulência institucional no Supremo adiciona mais uma variável a uma equação que já preocupa o campo e o mercado financeiro.
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