
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito para investigar uma suspeita de contaminação por defensivos agrícolas na Terra Indígena Tirecatinga, em Sapezal (MT). A área é habitada por povos Nambikwara, Terena, Manoki e Haliti.
A investigação foi aberta após um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) identificar resíduos de defensivos agrícolas em 88% das amostras de plantas medicinais cultivadas pelo povo Nambikwara. Os resultados acenderam um alerta sobre possíveis riscos à saúde da população indígena e ao meio ambiente.
De acordo com a portaria assinada pelo procurador da República Gabriel Martins, entre as substâncias encontradas estão carbofurano, produto proibido no Brasil e na União Europeia, além de atrazina, clorpirifós, tiametoxam e acetamiprido, defensivos amplamente utilizados na agricultura.
Segundo o documento, lideranças indígenas relataram o aumento de problemas de saúde na comunidade, incluindo doenças respiratórias, fortes dores de cabeça e casos de aborto espontâneo. Apesar dos relatos, o inquérito ressalta que ainda não há comprovação científica de que esses problemas tenham sido causados diretamente pelos defensivos agrícolas.
O objetivo da investigação é verificar se houve contaminação na terra indígena, monitorar a presença de resíduos em alimentos e plantas consumidos pela comunidade, apurar possíveis pulverizações irregulares nas áreas vizinhas e identificar medidas para reduzir eventuais impactos à saúde dos moradores e ao meio ambiente.
Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Terra Indígena Tirecatinga possui 244 moradores. A portaria também destaca que Sapezal é o segundo município de Mato Grosso que mais utiliza defensivos agrícolas.
Em nota, o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea-MT) informou que ainda não foi oficialmente notificado pelo MPF sobre a abertura do inquérito. Por esse motivo, o órgão disse que não irá se manifestar neste momento.
Embora não faça parte da investigação do MPF, um levantamento recente da InfoAmazonia, baseado em dados do MapBiomas Água, mostra que a Terra Indígena Tirecatinga também enfrenta uma expressiva redução de seus recursos hídricos.
Segundo o estudo, a área ocupada por rios, lagoas e outros corpos d’água encolheu 75% entre 1985 e 2025, o equivalente à perda de 283 hectares, colocando a terra indígena entre as cinco mais afetadas em toda a bacia do Alto Juruena.
A pesquisa aponta ainda que, no conjunto das terras indígenas da bacia, a superfície coberta por água diminuiu 55% no mesmo período, passando de 7.175 para 3.233 hectares. Em toda a bacia do Alto Juruena, a redução foi de aproximadamente 14%, com queda de 23.460 para 20.267 hectares.
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