
Toda discussão sobre o Plano Safra começa da mesma forma. Quanto será o volume de recursos? Qual será a taxa de juros? O governo conseguirá superar o valor da edição anterior?
Essas são perguntas importantes, que serão respondidas no próximo dia 1º. Mas talvez elas não sejam as mais centrais. Há uma dúvida de longo prazo. Por quanto tempo ainda o Tesouro Nacional conseguirá sustentar o modelo de expansão do agro baseado em crédito subsidiado?
O Plano Safra 2025/26 destinou R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial, o maior valor da história. Desse total, R$ 414,7 bilhões foram direcionados para custeio e comercialização e R$ 101,5 bilhões para investimentos. O volume foi R$ 8 bilhões superior ao da safra anterior, um crescimento nominal de 1,5%.
Em um ambiente de inflação acumulada e Selic elevada, diversos analistas argumentaram que, em termos reais, o programa andou de lado, ou até recuou.
Para 2026/27, o cenário tende a ser pior. Com a taxa Selic em 14,5%, os juros reais para o agro podem ultrapassar 18% em algumas operações no mercado financeiro tradicional. A consequência é o represamento de investimentos e altas taxas de inadimplência, sem falar nas recuperações judiciais do setor.
Ainda que as taxas subsidiadas permaneçam entre 3% e 6% para agricultura familiar e entre 8% e 12% para grandes produtores, as linhas esgotam rapidamente em algumas modalidades, e o acesso depende cada vez mais da capacidade de enquadramento, garantias e relacionamento bancário.
Isso acontece ao mesmo tempo que o custo operacional de uma lavoura dobrou nos últimos dez anos. Em regiões como Mato Grosso e Matopiba, o custo de produção da soja pode variar entre R$ 6 mil e R$ 9 mil por hectare, dependendo do nível tecnológico adotado.
A CNA tem defendido um plano próximo de R$ 600 bilhões e, em discussões recentes, o pleito do setor chegou à faixa de R$ 625 bilhões. O simples fato de esses números serem considerados plausíveis mostra o tamanho da transformação ocorrida no campo brasileiro. Há poucos anos, um Plano Safra de R$ 300 bilhões parecia gigantesco.
Mas o Estado é capaz de absorver isso?
O problema é que cada ponto percentual de juros a mais na economia brasileira aumenta o custo do crédito rural em bilhões de reais para o Tesouro. Em outras palavras, a política agrícola passou a competir diretamente com o orçamento público.
Mesmo com volumes superiores a R$ 500 bilhões, parte relevante dos produtores relata dificuldade de acesso em determinadas linhas, especialmente nas operações de investimento de médio prazo. Isso ocorre porque a expansão do crédito não é linear. Ela depende de equalização, risco bancário e capacidade de alavancagem do sistema financeiro.
Nesse contexto, a crescente participação de instrumentos de mercado, como CPRs, Fiagros e estruturas de barter parecem ser as únicas alternativas possível.
A questão é que esse crédito só chega aos grandes produtores, que têm garantia para apontar aos financiadores. Enquanto isso, parte relevante do médio produtor fica em uma zona intermediária: grande demais para depender apenas de políticas assistenciais, mas ainda insuficientemente capitalizado para acessar plenamente o mercado de capitais.
Essa “camada intermediária” é, hoje, uma das principais áreas de tensão do agronegócio brasileiro. E é justamente ela que depende de forma mais crítica do desenho do Plano Safra. Quem vai financiá-los e de que forma deveria ser a pergunta do setor.
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