
Uma investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT) revelou um cenário alarmante na unidade da processadora de alimentos MBRF em Lucas do Rio Verde (333 km de Cuiabá). A empresa é alvo de uma ação civil pública que aponta que 77 funcionárias sofreram abortos espontâneos entre os anos de 2019 e 2025. O órgão acusa a companhia de não proteger gestantes expostas a fatores de risco, especialmente o ruído excessivo nas linhas de produção.
Os dados, revelados em documentos judiciais obtidos pela agência Reuters, detalham que além dos abortos, houve 113 casos de partos prematuros e 67 gestações colocadas em risco diretamente por condições da planta industrial no mesmo período. O MPT pede uma indenização de R$ 20 milhões por danos morais coletivos e a remoção imediata de todas as grávidas das áreas consideradas perigosas.
A investigação aponta que, enquanto o limite máximo permitido pelas normas trabalhistas é de 80 decibéis, as trabalhadoras da unidade de Lucas do Rio Verde eram submetidas a níveis de até 93 decibéis. Segundo o MPT, o ambiente barulhento está associado a quadros de hipertensão, pré-eclâmpsia e falhas no crescimento fetal.
O caso ganhou repercussão internacional após o episódio de uma funcionária venezuelana, grávida de oito meses de gêmeas, que sofreu um aborto espontâneo dentro da fábrica em abril de 2024. Ela processou a empresa e foi indenizada, caso que agora serve de precedente para a ação do Ministério Público.
Outro lado
Procurada pela Reuters, a MBRF informou por e-mail que não reconhece os dados citados pelo MPT e que ainda apresentará sua defesa formal à Justiça. A empresa afirmou que segue rigorosamente a legislação brasileira e que garante o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) certificados.
A companhia também destacou que possui um programa de apoio a gestantes que oferece assistência médica e ajustes no trabalho conforme o estágio da gravidez, alegando que o projeto já beneficiou mais de 13 mil funcionárias desde 2017. Atualmente, a unidade de Lucas do Rio Verde emprega cerca de 4.800 pessoas, sendo 74 mulheres grávidas.
O MPT decidiu entrar com a ação após duas audiências de conciliação terminarem sem acordo, já que a empresa teria se recusado a transferir as gestantes para áreas silenciosas da fábrica.
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