
O Met Gala 2025, realizado em 5 de maio no Metropolitan Museum of Art, evidenciou como a moda tem se consolidado como instrumento estratégico de influência simbólica no campo político e diplomático. Com o tema “Superfine: Tailoring Black Style”, a edição deste ano colocou em evidência a estética do dândi negro e os códigos visuais da diáspora africana, gerando repercussões tanto no universo da moda quanto nas esferas de poder.
Apesar da proposta cultural, o evento também foi marcado por performances e mensagens politizadas, revelando uma tendência crescente: a instrumentalização da moda como linguagem de soft power. O vestuário deixou de ser apenas uma escolha estética para se tornar parte de uma engrenagem narrativa, onde roupas, acessórios e aparições públicas são utilizados como extensão de estratégias ideológicas e diplomáticas.
Entre os destaques notórios, chamou atenção a Primeira-Dama Melania Trump, que não participou do evento, mas voltou aos holofotes da moda internacional ao estrelar, na mesma semana, a capa de uma revista europeia com um ensaio visual sóbrio e elegante – o exato oposto do que o MET Gala exige. Reconhecida por utilizar a moda como ferramenta silenciosa de influência durante seu período como primeira-dama dos EUA, Melania é frequentemente citada como exemplo de como a imagem pode transmitir força, tradição e autoridade sem recorrer à excentricidade ou a pautas politizadas.
Entretanto, sua opositora, Kamala Harris, esteve presente no MET Gala e trajada de um vestido off-white desenhado por IB Kamara. Suspeito que a escolha da cor simboliza uma atitude pacificadora. A presença de autoridades políticas e celebridades globais reforçou a ideia de que grandes eventos de moda estão se tornando plataformas para disputas de imagem, nem sempre isentas de viés.
Há, contudo, uma crítica crescente quanto à seletividade das mensagens promovidas por grandes eventos como o Met Gala. A moda — antes plural e voltada à celebração da diversidade estética — parece, por vezes, submeter-se a narrativas hegemônicas que não necessariamente refletem a complexidade cultural ou os valores tradicionais de diferentes nações. Em nome de uma modernidade forçada, elementos como sobriedade, elegância clássica e referências culturais locais têm sido ofuscados por pautas e símbolos alinhados a movimentos ideológicos específicos. É relevante destacar que quando se envolve a palavra ‘moda’, naturalmente associa-se ao progressismo e o impõe. Parece-me que não há mais espaço para o clássico e o real.
Em tempos de diplomacia visual, cabe refletir sobre o papel da moda: será que ela está servindo à construção de pontes culturais ou se tornando apenas mais uma ferramenta para imposição simbólica? Resgatar a moda como expressão legítima de identidade nacional, respeitando suas raízes e vocações estéticas, é um desafio urgente. Porque, ao fim, o tecido da diplomacia também pode — e deve — ser costurado com autenticidade.
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