Política QUARTO MANDATO
Lula conquista quarto mandato, mas enfrentará país dividido e oposição fortalecida no Congresso Nacional
Reeleito após virada histórica sobre Flávio Bolsonaro, presidente terá pela frente um Legislativo mais conservador, com o PL formando as maiores bancadas da Câmara e do Senado a partir de 2027.
26/10/2026 09h30
Por: Redação H1MT
Reprodução

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou neste domingo (25) seu quarto mandato à frente da Presidência da República, após derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026. Apesar da vitória histórica, o petista terá pela frente o desafio de governar um país politicamente dividido e negociar com um Congresso Nacional no qual a oposição saiu fortalecida.

Lula recebeu 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, revertendo a vantagem conquistada pelo adversário no primeiro turno. A diferença superior a quatro milhões de votos garantiu a permanência do Partido dos Trabalhadores no comando do governo federal até 2030.

Entretanto, o resultado das eleições legislativas aponta um cenário de dificuldades para o próximo mandato. O Partido Liberal, legenda de Flávio Bolsonaro, terá as maiores bancadas tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal.

Na Câmara, o PL contará com 121 dos 513 deputados federais, enquanto o PT terá 70 parlamentares. No Senado, a diferença também será significativa: o partido de Flávio Bolsonaro ocupará 29 das 81 cadeiras, contra dez senadores petistas.

A composição do Congresso indica que Lula precisará ampliar as negociações com partidos de centro e centro-direita para conseguir aprovar projetos considerados prioritários pelo governo, especialmente nas áreas econômica, fiscal e administrativa.

Durante seu discurso de vitória, realizado em São Paulo, o presidente reconheceu que enfrentará dificuldades na relação com o Legislativo, mas afirmou que pretende respeitar a composição escolhida pelos eleitores.

A relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso já foi marcada por dificuldades durante o terceiro mandato de Lula, iniciado em 2023. Naquele ano, a medida provisória responsável pela reorganização dos ministérios quase perdeu a validade e acabou aprovada somente no último dia do prazo, após alterações que contrariaram interesses do governo.

Outras derrotas ocorreram ao longo do mandato, incluindo a derrubada de vetos presidenciais e a rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), em abril de 2026.

As dificuldades de articulação política também provocaram mudanças na equipe presidencial. Em fevereiro de 2025, Alexandre Padilha deixou a Secretaria de Relações Institucionais, sendo substituído por Gleisi Hoffmann, que assumiu a responsabilidade de fortalecer o diálogo com os parlamentares.

Na Câmara dos Deputados, o presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) trabalha para conquistar um novo mandato à frente da Casa. Apesar de seu partido ter apoiado Flávio Bolsonaro no segundo turno, Motta declarou apoio à reeleição de Lula ainda na primeira etapa da disputa presidencial.

Segundo informações do Metrópoles, uma articulação envolvendo partidos do Centrão, além de PSB e PDT, reúne legendas que elegeram 273 deputados federais. O grupo busca construir uma maioria capaz de impedir que o PL assuma a presidência da Câmara em 2027.

No Senado, o cenário também apresenta desafios. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tenta reconstruir sua relação com Lula após meses de desgaste político.

O PL, por sua vez, avalia lançar o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, para disputar a presidência do Senado em fevereiro de 2027. A senadora Tereza Cristina (PP-MS) também aparece entre os nomes considerados para a disputa.

Após a confirmação da reeleição, Alcolumbre telefonou para Lula e defendeu a necessidade de pacificação nacional. O presidente do Senado reconheceu que a divisão política do país representa um desafio para o funcionamento das instituições e para a construção de consensos.

Além das negociações políticas, Lula terá de administrar um cenário econômico que exige atenção às contas públicas, à trajetória da dívida federal, à inflação e à confiança dos investidores.

A necessidade de formar maiorias parlamentares poderá influenciar diretamente a tramitação de propostas econômicas, reformas e medidas relacionadas ao orçamento federal.

Outro desafio será a relação com os governadores e lideranças regionais, especialmente nos estados onde Flávio Bolsonaro conquistou ampla maioria dos votos.

Em Mato Grosso, por exemplo, o candidato do PL recebeu 66,06% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 33,94%, demonstrando a diferença entre o comportamento eleitoral do estado e o resultado nacional.

Embora tenha conquistado a Presidência, Lula encontrará uma oposição com representação expressiva no Congresso e capacidade de influenciar votações, apresentar propostas alternativas e fiscalizar as ações do Executivo.

A vitória também coloca o petista diante do desafio de reduzir as tensões políticas que marcaram a campanha eleitoral. A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro evidenciou diferenças profundas entre os projetos defendidos pelos dois candidatos e seus respectivos grupos políticos.

Com o início do novo mandato previsto para 1º de janeiro de 2027, o presidente terá de conciliar suas propostas de governo com a composição de um Legislativo que apresenta maior representação de partidos de oposição.

O resultado das urnas garantiu a Lula mais quatro anos na Presidência da República, mas a capacidade de transformar suas propostas em políticas públicas dependerá, em grande parte, das negociações que conseguir estabelecer com o Congresso Nacional.