Agosto é o mês em que o Brasil veste lilás para falar sobre o enfrentamento à violência contra a mulher. Em Mato Grosso, porém, a campanha acontece diante de uma realidade especialmente preocupante: o estado permanece entre os líderes nacionais em feminicídios e convive com números que mostram que, para muitas mulheres, o maior perigo pode estar justamente dentro de casa.
Os dados mais recentes exigem uma precisão importante: Mato Grosso não ocupa atualmente o primeiro lugar nacional na taxa de feminicídios, mas está entre os piores do país. Em 2025, foram registrados 53 feminicídios, com taxa de 2,7 mortes para cada 100 mil mulheres, a terceira maior do Brasil, atrás apenas de Acre e Rondônia.
O número representa ainda um crescimento de aproximadamente 11% em relação a 2024, quando 47 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado.
Por isso, mais do que uma frase de impacto, a realidade impõe uma pergunta incômoda: por que Mato Grosso continua figurando, ano após ano, entre os lugares mais perigosos do Brasil para uma mulher?
Os números ajudam a dimensionar o problema.
Em 2025, Mato Grosso registrou 95 homicídios de mulheres. Desse total, 53 foram classificados como feminicídios — ou seja, assassinatos praticados contra mulheres em razão de sua condição de gênero, geralmente associados à violência doméstica e familiar.
Isso significa que mais da metade das mulheres assassinadas no estado foi vítima de feminicídio.
E o problema não começou agora.
Entre 2021 e 2025, Mato Grosso permaneceu de forma recorrente entre as unidades da Federação com maiores taxas de feminicídio, demonstrando que a violência letal contra mulheres não pode ser tratada como um fenômeno isolado ou circunstancial.
O cenário permanece preocupante neste ano.
Dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso, apontavam 31 feminicídios registrados no estado até 17 de agosto de 2026.
Somente em agosto, mês dedicado justamente à conscientização e ao combate à violência contra a mulher, quatro mulheres já haviam sido vítimas de feminicídio até aquela atualização.
Cada número representa uma vida interrompida.
São mães, filhas, irmãs, amigas e trabalhadoras que deixam famílias marcadas por uma violência que, em muitos casos, não começou no momento do assassinato.
Antes da morte podem existir ameaças, perseguições, humilhações, controle, agressões, violência psicológica e tentativas anteriores.
Talvez um dos números mais alarmantes esteja justamente entre aquelas que sobreviveram.
Mato Grosso registrou 241 vítimas de tentativa de feminicídio em 2025, contra 171 no ano anterior.
O crescimento foi de aproximadamente 41% em apenas um ano. Com 12,46 vítimas para cada 100 mil mulheres, Mato Grosso apresentou a segunda maior taxa de tentativas de feminicídio do país naquele levantamento.
O dado mostra que o problema é ainda maior do que o número de mortes consegue revelar.
Para cada feminicídio consumado, existem mulheres que sobreviveram a ataques que poderiam ter terminado da mesma maneira.
O feminicídio frequentemente representa o estágio final de um ciclo de violência.
Agressões físicas, ameaças, perseguição, violência psicológica, controle financeiro, ciúmes excessivos, isolamento e descumprimento de medidas protetivas são sinais que não podem ser normalizados.
O próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 chama atenção para um contraste preocupante: enquanto os homicídios diminuíram no Brasil em 2025, indicadores relacionados à violência de gênero e doméstica cresceram, incluindo feminicídios, agressões, ameaças, violência psicológica e descumprimento de medidas protetivas.
É uma violência que muitas vezes cresce silenciosamente.
Começa com controle.
Passa pela ameaça.
Chega à agressão.
E, em dezenas de casos todos os anos, termina em morte.
Criado para ampliar a conscientização sobre a violência doméstica e divulgar os mecanismos de proteção às vítimas, o Agosto Lilás ganha significado ainda maior diante dos números de Mato Grosso.
Campanhas educativas são importantes. Mas os indicadores mostram que o enfrentamento precisa acontecer durante os 365 dias do ano.
É necessário fortalecer a rede de proteção, facilitar o acesso das vítimas aos serviços públicos, acelerar respostas diante de ameaças, fiscalizar medidas protetivas, ampliar estruturas especializadas e trabalhar também na prevenção.
Outro desafio está no interior.
Dados nacionais do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 50% dos feminicídios registrados em 2024 ocorreram em municípios com até 100 mil habitantes, embora essas cidades concentrem cerca de 41% da população brasileira.
Em um estado territorialmente gigantesco como Mato Grosso, isso reforça a necessidade de fazer a proteção chegar também às pequenas cidades e regiões mais distantes dos grandes centros.
Violência contra a mulher não é problema particular de um casal.
É questão de segurança pública.
A sociedade também precisa abandonar a ideia de que ameaças, agressões e controle excessivo fazem parte de conflitos normais de relacionamento.
O silêncio pode permitir que a violência avance.
Em 2026, o Ligue 180 registrou crescimento de 90,8% nos atendimentos realizados no Brasil entre janeiro e julho na comparação com o mesmo período de 2025. O aumento não significa necessariamente que a violência tenha crescido na mesma proporção, mas pode indicar maior procura por informação e disposição das vítimas e da sociedade para romper o silêncio.
O Agosto Lilás precisa provocar uma reflexão que ultrapasse campanhas, palestras e publicações nas redes sociais.
Quantas mulheres ainda precisarão morrer para que os números deixem de ser tratados como estatística?
Mato Grosso é um estado que cresce, produz riquezas e ocupa posição de destaque nacional em diferentes setores. Mas esse desenvolvimento precisa ser acompanhado pela capacidade de garantir às mulheres algo muito mais básico: o direito de viver sem medo e, sobretudo, o direito de permanecer vivas.
Os números mostram que ainda estamos longe disso.
Neste Agosto Lilás, a mensagem precisa chegar às vítimas, aos familiares, aos vizinhos, às instituições e aos homens:
ameaça é violência. Controle é violência. Agressão é violência. Feminicídio não começa com a morte.
Combater esse ciclo antes que ele chegue ao último estágio é responsabilidade do poder público e de toda a sociedade.
Porque nenhuma mulher deveria entrar para uma estatística simplesmente por ser mulher.