As eleições de 2026 contarão com o maior número de chapas puro-sangue desde o pleito de 1989, o primeiro realizado após a redemocratização do país. O cenário se consolidou após diversos partidos e coligações escolherem a neutralidade no âmbito nacional.
Enquanto a corrida eleitoral de 1989 tinha 22 nomes, neste ano concorrem à Presidência da República 13 candidatos. No entanto, proporcionalmente, o pleito deste ano conta com mais chapas de apenas um partido, na marca dos 92,3% contra 86,4% de 1989.
O levantamento mostra que a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é a única que possui uma coligação no âmbito nacional pela Federação Brasil da Esperança, criada em 2022.
Atualmente o grupo é formado por PT (Partido dos Trabalhadores), PCdoB (Partido Comunista do Brasil), PV (Partido Verde), PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), Rede Sustentabilidade, PSB (Partido Socialista Brasileiro) e PDT (Partido Democrático Trabalhista).
Alguns dos concorrentes do petista, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), e o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), cogitaram apoios e nomes para possíveis vices em outros partidos, mas não fecharam a chapa.
Em comparação ao último pleito nacional, em 2022, três candidatos contavam com coligações: Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil da Esperança - PT, PCdoB, PSOL, Rede, PSB, Solidariedade, Avante, PROS e Agir), Jair Bolsonaro (Muda Brasil - PL, PP e Republicanos) e Simone Tebet (Brasil para Todos - MDB, Podemos, PSDB e Cidadania).
Para Murilo Medeiros, cientista político da UnB (Universidade de Brasília), a escolha das legendas em abrir mão de um apoio nacional e deixar que seus diretórios nos estados escolham os nomes que irão formar palanque demonstra um novo modelo do presidencialismo brasileiro.
Na análise, esse contexto caminha para uma "paroquização" da política brasileira, com os redutos eleitorais ganhando cada vez mais força e a sinalização de que uma ausência de apoio nacional não reflete na chapa no estado.
"É uma conjuntura que fortalece muito os caciques e as lideranças regionais, favorecendo a pulverização das alianças locais. Em vez de uma grande coalizão organizada de cima para baixo pela candidatura presidencial, teremos vários acordos construídos de baixo para cima, a partir dos estados", aponta.
Desta forma, não definir um nome como padrão para todas as regiões permite que os candidatos a governadores e outros cargos que possuem mais contato direto com aquela comunidade escolham aquele presidenciável com o qual mais se identificam.
"A diferença é que o partido deixa de impor uma única escolha presidencial para todo o país. Isso permite que uma legenda apoie determinado candidato presidencial em um estado e outro candidato em uma região diferente, de acordo com a conveniência eleitoral de cada diretório", completa Medeiros.
Apesar dessa mudança, outros motivos podem incentivar a formação de coligações. No caso da Federação Brasil da Esperança, a única do ano, o especialista vê uma espécie de "herança" vinda do último pleito, somada a uma questão de "sobrevivência eleitoral".
Para ele, com a redução de votos e, consequentemente, menos nomes no Congresso e Senado, o apoio funciona como um meio de manutenção da força do nome de um partido ao usar o capital político de Lula.
"Legendas tradicionais de esquerda, como PSB e PDT, passam por processos de redução de suas bancadas e de perda de protagonismo nacional. A aliança com Lula funciona como uma estratégia de preservação de espaço político."