A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira (6), a Operação Heritage para investigar um suposto esquema de desvio de mais de R$ 308 milhões em recursos públicos relacionados a um acordo firmado entre o Governo de Mato Grosso e uma empresa de telefonia. A investigação apura ainda possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, peculato, lavagem de dinheiro, organização criminosa e uso indevido de informação privilegiada.
Por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), estão sendo cumpridos 25 mandados de busca e apreensão nos estados de Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. Além das diligências, a Justiça autorizou o bloqueio e a indisponibilidade de bens de até R$ 316 milhões, bem como a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados. Também foram impostas medidas cautelares, como a proibição de deixar o país, com recolhimento dos passaportes, e restrição de contato entre os alvos da investigação.
Entre os principais alvos da operação está o ex-governador de Mato Grosso, Mauro Mendes. Também foram alvo de buscas o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil), atualmente candidato a vice-governador na chapa de Otaviano Pivetta, além de secretários de Estado, um desembargador e um procurador estadual. Até a divulgação inicial da operação, os nomes dos demais investigados não haviam sido oficialmente confirmados pela Polícia Federal.
Em nota, Mauro Mendes afirmou que confia nas investigações conduzidas pela Polícia Federal e declarou que irá colaborar integralmente com o esclarecimento dos fatos, sustentando acreditar que o caso será totalmente esclarecido ao longo da apuração.
Segundo a Polícia Federal, a investigação teve origem na análise de um acordo firmado entre o Estado de Mato Grosso e uma empresa privada de telefonia para encerrar uma longa disputa tributária envolvendo a restituição de valores de ICMS.
Os investigadores suspeitam que a operação financeira tenha sido utilizada para desviar recursos públicos por meio de uma sofisticada estrutura financeira composta por fundos de investimento em cascata e empresas interpostas, mecanismo que teria como finalidade ocultar a origem, a movimentação e o destino final dos valores pagos pelo Estado.
O acordo investigado foi celebrado entre a Procuradoria-Geral do Estado (PGE-MT) e a operadora Oi S.A. para encerrar um litígio judicial iniciado em 2009.
À época, a dívida atribuída ao Estado era estimada em aproximadamente R$ 690 milhões. Após negociações, as partes chegaram a um entendimento que reduziu o pagamento para cerca de R$ 308 milhões. Em agosto de 2025, a Justiça de Mato Grosso homologou judicialmente o acordo.
Ainda em 2025, o Ministério Público Estadual instaurou procedimentos para analisar a legalidade da operação e verificar se havia eventual favorecimento de pessoas ligadas à administração estadual da época. As suspeitas agora passam a integrar a investigação conduzida pela Polícia Federal.
De acordo com a Polícia Federal, os fatos investigados podem caracterizar, em tese:
A corporação ressalta que as investigações permanecem em andamento e que novas infrações penais poderão ser identificadas conforme o avanço da análise do material apreendido durante a operação.
Os documentos, equipamentos eletrônicos e demais materiais recolhidos durante o cumprimento dos mandados serão submetidos à perícia e à análise dos investigadores. A partir desse material, a Polícia Federal pretende rastrear a movimentação dos recursos, identificar o destino do dinheiro e esclarecer a participação de cada investigado no suposto esquema.
A Operação Heritage representa uma das maiores investigações recentes envolvendo recursos públicos em Mato Grosso e pode trazer novos desdobramentos à medida que a apuração avance. Até o momento, a Polícia Federal destaca que todos os investigados têm assegurado o direito ao contraditório e à ampla defesa, e que a investigação ainda está em fase inicial, sem conclusão sobre eventual responsabilidade criminal.