Após 13 horas de julgamento, Carlos Alberto Gomes Bezerra, o ‘Carlinhos’, foi condenado nessa sexta-feira (31) pelo Tribunal do Júri a 36 anos de reclusão em regime fechado pelos crimes de feminicídio contra a ex-namorada Thays Machado e homicídio contra o namorado dela Willian César Moreno.
Os jurados do Conselho de Sentença acolheram a sustentação do Ministério Público (MPMT) e reconheceram a materialidade e autoria dos crimes atribuídos a Carlos Alberto. O crime ocorreu em 18 de janeiro de 2023.
Referente a vítima Thays, foi reconhecida a prática de homicídio qualificado por motivo torpe, emprego de meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio. Em relação a Willian, o réu foi condenado por homicídio qualificado por motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima.
A sentença foi lida pela juíza Mônica Catarina Perri, que negou o direito ao condenado de recorrer em liberdade. Como já estava em prisão preventiva, ele deve permanecer preso para o cumprimento definitivo da pena no Centro de Ressocialização Industrial Ahmenon Lemos Dantas, em Várzea Grande.
Durante o júri foram ouvidos o delegado de polícia Marcel Gomes de Oliveira, a investigadora Luciene Benedita Taques de Abreu Wolf e o próprio réu.
Atuaram na acusação os promotores de Justiça Vinicius Gahyva Martins e Élide Manzini de Campos. A defesa de Carlinhos foi patrocinada pelo advogado Elson Marcelino.
O júri ocorreu após longa batalha judicial e sucessivos adiamentos. Inicialmente agendado para ocorrer em 7 de julho deste ano, o ato foi remarcado para o dia 21 a pedido da defesa do réu.
Já no dia 21, o ato chegou a iniciar, mas foi adiado novamente diante do abandono dos advogados de defesa de Carlinhos em plenário, mesmo com jurados sorteados, juíza, promotores e demais membros a postos para iniciar o julgamento.
Os advogados chegaram a buscar novamente o adiamento, mas o julgamento ocorreu nesta sexta-feira (31).
O primeiro a prestar depoimento foi o delegado da Polícia Civil, Marcel Gomes de Oliveira. Responsável pelas investigações do caso, ele afirmou que as provas reunidas apontam que o acusado monitorava a rotina da ex-companheira, Thays Machado, antes do crime.
Segundo o delegado, um “farto conjunto probatório” foi encontrado durante a investigação. Entre os materiais apreendidos no escritório de Carlinhos estavam anotações, feitas de próprio punho, com locais frequentados por Thays, como pet shop, supermercado e a escola da filha.
Em depoimento, a investigadora da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Lívia Cristina Silva Sales, informou que foram identificados 914 registros de chamadas entre o réu e a vítima entre 31 de dezembro de 2022 e 18 de janeiro de 2023, data do duplo homicídio.
Segundo a policial, a análise das conversas também mostrou que Thays era categórica ao afirmar que o relacionamento havia terminado e que não existia possibilidade de reconciliação.
Outro ponto revelado pela investigadora foi que a análise dos celulares identificou que Carlinhos teria contratado uma cigana para realizar um trabalho espiritual envolvendo Thays Machado. Segundo a testemunha, a informação também foi registrada no relatório da investigação.
O réu Carlos Alberto afirmou durante interrogatório no Tribunal do Júri, que ‘perdeu o controle’ no momento em que matou a ex-companheira, Thays Machado, e o namorado dela.
Questionado pela juíza sobre quanto tempo levou entre encontrar o casal e efetuar os disparos, o réu respondeu que tudo aconteceu muito rapidamente. “Acho que foi fração de segundos. Eu abaixei o vidro e perguntei: ‘Então era por isso que você não estava me atendendo?’. Ele veio na minha direção. Aí eu perdi o controle”, declarou.
Carlinhos negou que rastreasse a ex-companheira e afirmou que ambos compartilhavam voluntariamente a localização dos celulares enquanto mantinham o relacionamento.
Questionado pela juíza sobre a acusação de que ligava para diversos números para descobrir com quem Thays conversava, ele respondeu que possui “memória fotográfica”.
Segundo o réu, como enfrentava problemas de memória, costumava fazer anotações sobre diversas situações, inclusive nomes de pessoas com quem Thays mantinha contato.
Embora estivesse elencado para prestar depoimento como testemunha no júri, o irmão de Thays, o perito Thyago Machado, teria desistido de participar por supostamente ter sido ofendido pelos advogados da defesa de Carlos Alberto, segundo informou o promotor Vinicius Gahyva.
“Nesta semana a defesa juntou materiais ofendendo a testemunha e vitima indireta do crime. Trouxe elementos que nada tem a ver com o processo, com objetivo de descreditar a testemunha, que não foi testemunha do fato, é irmão. Trouxeram boletins de ocorrência e processos que a testemunha sofreu, em conduta que atenta contra a legalidade e normativa do CNJ”, citou.
As investigações apontaram que, na manhã de 18 de janeiro de 2023, Carlos Alberto passou a seguir o veículo ocupado por Thays e Willian. Conforme denúncia do Ministério Público, ele acompanhou o trajeto do casal até um edifício residencial, onde a mãe de Thays morava, aguardando o momento em que os dois desceram do carro.
A acusação sustentou que a ação foi planejada e executada de forma a impedir qualquer possibilidade de reação das vítimas. De acordo com o MPMT, o empresário efetuou diversos disparos contra o casal em plena luz do dia, em área urbana.
Thays Machado e Willian Cesar Moreno morreram no local. Câmeras de segurança registraram parte da dinâmica do crime e integraram o conjunto de provas reunidas durante a investigação.
Após os disparos, Carlos Alberto deixou o local e fugiu. Horas depois, foi localizado e preso por policiais civis em uma propriedade da família, no município de Campo Verde.
Desde então, o caso passou por uma série de recursos apresentados pela defesa, incluindo pedidos de desaforamento, suspensão do júri e reconhecimento de insanidade mental, todos rejeitados pela Justiça.