O agronegócio de Mato Grosso vive uma contradição. Enquanto a produção cresce e as fazendas incorporam máquinas cada vez mais modernas, produtores encontram dificuldades para contratar profissionais preparados para operar equipamentos, acompanhar lavouras e executar serviços essenciais no campo.
Um levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária mostra que 62,62% dos produtores consultados consideram grande a dificuldade para recrutar novos trabalhadores. A falta de qualificação técnica foi apontada como um obstáculo por 69,16% dos entrevistados.
O cargo com maior escassez é o de operador de máquinas agrícolas, citado por 63,77% dos produtores. Em seguida aparecem trabalhadores de serviços gerais, mencionados por 38,65%.
Também há dificuldades na contratação de técnicos agrícolas ou agrônomos, monitores de pragas, gerentes e encarregados.
A imagem do trabalho rural exclusivamente braçal já não corresponde à realidade de muitas propriedades mato-grossenses. Máquinas usadas no plantio, na pulverização e na colheita possuem computadores de bordo, sensores, sistemas de geolocalização, controle automático e ferramentas de agricultura de precisão.
Uma colheitadeira de algodão pode custar mais de R$ 7 milhões e exige operadores capazes de interpretar informações, regular o equipamento e reduzir perdas durante a operação.
A formação inadequada pode causar prejuízos expressivos. Um erro na regulagem de uma colheitadeira, por exemplo, pode deixar parte da produção no campo. Falhas na aplicação de defensivos podem elevar custos, reduzir a produtividade e provocar impactos ambientais.
Por essa razão, trabalhadores com experiência e qualificação passaram a ser disputados entre as propriedades.
Segundo o levantamento, os salários de operadores podem começar em aproximadamente R$ 3 mil nas funções de entrada e superar R$ 15 mil entre profissionais responsáveis por máquinas e frotas de maior complexidade.
Para diminuir a rotatividade e atrair novos trabalhadores, muitas fazendas ampliaram os benefícios oferecidos.
A pesquisa indica que 85,19% das propriedades fornecem alimentação e 84,95% disponibilizam moradia. Também aparecem vantagens como transporte, treinamento, acesso à internet, plano de saúde, vale-alimentação, gratificações por produtividade e participação nos resultados.
A oferta de habitação é estratégica porque muitas propriedades ficam distantes das cidades. Em alguns casos, a contratação inclui oportunidades para outros integrantes da família, seja em funções administrativas, domésticas ou operacionais.
O estudo contabilizou 6.814 trabalhadores fixos nas propriedades participantes. A contratação pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho foi indicada por 96,12% dos entrevistados.
A dificuldade não está relacionada apenas ao salário. Nas últimas décadas, famílias incentivaram os filhos a deixar o campo em busca de formação universitária e empregos urbanos.
Além disso, permanece a percepção de que trabalhar em uma fazenda significa atuar exclusivamente em atividades pesadas, isoladas e com poucas perspectivas de crescimento.
O setor tenta mudar essa imagem ao apresentar oportunidades em tecnologia, gestão, logística, veterinária, agricultura de precisão, manutenção mecânica e análise de dados.
A pesquisa ouviu 417 produtores de 87 municípios, possui nível de confiança de 95% e margem de erro de cinco pontos percentuais.
O desafio agora é aproximar escolas técnicas, universidades, entidades do agronegócio e propriedades rurais para formar trabalhadores de acordo com as necessidades reais da produção.