Economia AGRONEGÓCIO
Plano Safra mais que dobra em seis safras e supera inflação
Em seis ciclos, o Plano Safra cresceu R$ 358 bilhões, avanço nominal de 151%, enquanto a política agrícola passou por transformação: o crédito subsidiado perdeu espaço para fontes privadas de financiamento
30/06/2026 07h53
Por: Redação H1MT
Crédito rural foi majoritariamente direcionado ao custeio das últimas seis safras. • Divulgação/MAPA

Do crédito subsidiado em um cenário de juros historicamente baixos ao maior Plano Safra da história em meio à Selic de dois dígitos. A evolução da principal política de financiamento do agronegócio brasileiro nos últimos seis anos retrata a própria transformação da economia do país.

Entre o ciclo 2020/21 e o atual Plano Safra 2025/26, o volume de recursos saltou de R$ 236,3 bilhões para R$ 594,4 bilhões — alta de 151% — em um período marcado pelo choque inflacionário do pós-pandemia, pelo aperto monetário promovido pelo Banco Central. E este salto também é maior que a inflação dos meses de junho que, no calendário governamental, é o período de anúncio do programa.

Enquanto o salto do volume de recursos se consolidava, a inflação junina oscilou ao longo dos últimos seis ciclos. Destaque para 2022/23, momento de safra recorde, mas de IPCA de dois dígitos, que pesou nas projeções econômicas da época e no fechamento dos cálculos públicos.

Plano Safra Data do anúncio IPCA acumulado em 12 meses (junho)
2020/21 junho/2020 2,13%
2021/22 junho/2021 8,35%
2022/23 junho/2022 11,89%
2023/24 junho/2023 3,16%
2024/25 julho/2024 4,23%
2025/26 julho/2025 5,35%

"Olhando o histórico, o Plano Safra cresceu mais que a inflação. Só que o fôlego diminuiu. Nesse último ciclo foram R$ 516,2 bilhões, R$ 8 bilhões a mais que no ano anterior, uma alta de 1,5% sobre os R$ 508 bilhões da temporada passada — abaixo da inflação. Traduzindo: o plano ficou parado no lugar", avalia ao CNN Agro Wolney Arruda, CEO da Plantae Agrocrédito.

E tem um fator que pesa mais do que a inflação nessa conta, que é a Selic. Atualmente, depois de três cortes consecutivos, a taxa é de 14,25% ao ano. Mesmo em queda, é juro alto, o que encarece o crédito mesmo quando o volume de recursos sobe, destaca o executivo.

Além disso, o valor dos recursos controlados, isto é, com juro mais baixo foi diminuindo nos últimos seis anos, o que demandou "o funding" do mercado privado.

"É por isso que dá pra anunciar um número gigante e, ao mesmo tempo, o produtor reclamar que está pagando mais caro para tomar dinheiro. O problema nunca foi o tamanho do plano. É que o crédito anda chegando mais caro, e mais difícil de conseguir, na porteira", frisou.

Além disso, por uma mudança estrutural na forma de financiar o crédito rural, hoje cada vez mais dependente de recursos privados, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), e menos do orçamento do Tesouro.

De acordo com os dados do Ministério da Agricultura, ao longo das últimas seis safras, o crescimento dos valores anunciados esconde mudanças importantes na composição do programa.

Se no início da série o foco era ampliar o crédito subsidiado em um ambiente de Selic inferior a 3% ao ano, a escalada dos juros obrigou o governo a redesenhar o modelo.

Com o aumento do custo da equalização — mecanismo pelo qual a União cobre a diferença entre a taxa de mercado e os juros pagos pelos produtores —, o espaço fiscal ficou mais restrito, ampliando a participação de recursos livres captados pelos bancos e do mercado de capitais.

Com os dados de 2020/21 até 2025/26, observa-se que o Plano Safra tenha crescido muito, sua essência permanece a mesma: a maior parte do crédito continua financiando o ciclo produtivo (custeio e comercialização).

Mais de 2/3 dos recursos do Plano Safra seguem destinados ao financiamento da produção de cada safra, segundo dados compilados pelo CNN Agro.

Enquanto uma parcela menor é destinada a investimentos estruturais, como máquinas, armazenagem e irrigação. Investimentos representam cerca de 20% a 30% dos recursos ao longo da série histórica (2020 a 2026).

Às vésperas do anúncio do Plano Safra 2026/27, o desafio permanece semelhante ao dos últimos anos: conciliar a demanda crescente por crédito com um ambiente de juros elevados e restrições orçamentárias, mantendo a competitividade do agronegócio sem ampliar de forma significativa o custo fiscal da política agrícola.

Outra preocupação da cadeia agropecuária é a origem do dinheiro, que também vem mudando bastante. "O Tesouro está saindo aos poucos da posição de financiador principal, e o crédito privado vai ocupando esse espaço: o programa tende a crescer perto da inflação enquanto os instrumentos de mercado ganham peso no financiamento da safra", explicou Arruda.

O dado mais recente divulgado pelo Mapa evidencia o contraste: o estoque de CPR (Cédula de Produto Rural) chegou a R$ 565 bilhões em maio, alta de 13% em 12 meses, e a parcela das LCAs (Letra de Crédito do Agronegócio) direcionada obrigatoriamente ao campo subiu 20%, puxada pela regra que elevou a exigência de 50% para 60%. Mas tem um detalhe que quase ninguém comenta: mesmo com o estoque em alta, as emissões novas de CPR caíram 6% nesta safra.

Ou seja, há robustez nos valores disponibilizados, só que concentrado em menos operações, e quem tem área menor fica de fora, enfatizou Arruda.